Há um certo fenômeno que atinge a maioria de nós, cidadãos de uma sociedade capitalista, conhecido como a “depressão de domingo”. Este faz referência àquela ansiedade seguida de angústia que costuma pegar os estudantes e trabalhadores, comumente fomentadas pelo cair da tarde de domingo, ou pelo jingle de abertura e encerramento do programa Fantástico na Globo. Esta situação está diretamente associada a insatisfação gerada pelo próprio cotidiano, geralmente composto de responsabilidades, prazos e, consequentemente, longas horas de trabalho. Infelizmente, o fenômeno citado é apenas a boca de um buraco muito mais profundo no estilo de vida adotado nas cidades.

Foi Henry Ford que, em 1º de maio de 1926, instituiu o padrão de 8 horas por dia, 5 dias por semana, 40 horas semanais de trabalho para os trabalhadores de sua fábrica, e depois para os executivos da empresa. Antes disso, em parte por causa da revolução industrial do início do século 19, os trabalhadores da época eram forçados a trabalhar o mínimo de 14 horas diárias para merecer o ganha-pão no fim do mês. A Ford concluiu, baseando-se em várias pesquisas de produtividade, que a longo prazo, o trabalho extensivo não era sinônimo de um maior número de tarefas executadas. Perceberam que 20 horas semanais adicionais, por exemplo, se tornavam insustentáveis após duas ou três semanas, pois o nível de produtividade dos trabalhadores caía após este período de trabalho exagerado.

Além de resultados negativos no fim do mês para uma empresa, longas jornadas de trabalho produzem também trabalhadores infelizes. Outro motivo pelo qual Henry Ford foi um dos pioneiros na implementação da redução da jornada de trabalho, foi porque ele, sendo o grande empresário que era, percebeu que seus trabalhadores precisavam de horas de lazer para encontrar formas de espairecer e logo, tirar proveito do dinheiro que ganhavam. O entretenimento envolvia e, mais do que nunca, envolve, o consumo de produtos, entre eles, carros como os de Ford. A escassez de tempo livre, resultado da vida frenética das sociedades capitalistas, provoca o acumulo de estresse, comumente associado a uma série de doenças mentais e físicas, que só fazem piorar o humor de um indivíduo. Falta de tempo para dedicar a saúde física, mental e social são sinais claros de que talvez você esteja trabalhando mais do que deveria, e isto vai, cedo ou tarde, afetar o seu bem estar geral.

A “depressão de domingo” é um resultado direto da síndrome da vida em 2/7. Esta, acontece quando um cidadão estende, de forma proposital ou forçada, sua jornada de trabalho durante os 5 dias da semana útil de Henry Ford, normalmente em busca de melhores resultados, reconhecimento e, logo, melhor remuneração. Tal atitude resulta em menos tempo para dedicar a si próprio, seus familiares e amigos. Nós do comTijolo somos testemunhas diárias do efeito de tal síndrome: nossa situação atual de trabalho como empreendedores, Kalina com o studio de ilustração kaju.ink e eu, com o laboratório de desenvolvimento AEROGAMI, nos permite trabalhar de qualquer lugar, quando e quanto quisermos. Quando estamos fazendo atividades ao ar livre, nos dias úteis de trabalho, parece que estamos sozinhos neste mundo. Percebemos que a maioria das pessoas estão vivendo somente no curto espaço dos 2 dias que compõe um final de semana, quando aproveitam para viajar para a praia, correr no parque, reunir a família, sair com os amigos, ou simplesmente sentar e não fazer nada no banco da praça. Não é de se admirar que quando chega a noite de domingo, muitos estejam deprimidos e angustiados por mais um iminente ciclo da roda gigante.