Há uma linha tênue entre o desejo e a inveja. “Ô lá em casa!” – exclama a tia que vende chiclete na esquina de uma rua movimentada de São Paulo, ao ver um bofe de seu agrado, passando engomado acompanhado de uma loirassa no passageiro de sua BMW branquinha, último modelo das vitrines. – Ei tia, o cara, o carro ou a loira? – A pergunta se dissipa pelo ar.

Cada um de nós aspira coisas diferentes. O desejo de posse está encrustado em nossa cultura capitalista: é a graxa da engrenagem que move a evolução dessa máquina – e que sentimento gosmento! Produtos, pessoas, sentimentos e vidas inteiras. Quando não temos, queremos; quando temos não usamos; quando não podemos, invejamos. Ah! Tudo bem, é inveja branca, é inveja boa – bobagem. “A inveja mata um, tem muita gente ruim.” – disse a mãe de um certo rimador paulistano. Claro que tudo depende do momento, situação financeira e entorno de cada indivíduo. Kalina e eu estamos, no momento, buscando um apartamento para morarmos juntos e experimentando os dois lados dessa moeda da posse – ou melhor, nesse caso, aluguel.

Duplex dois quartos com duas suítes, banheira, lareira, cozinha toda equipada com eletrodomésticos branquinhos de última geração. Porcelanato 8x8 aqui, piso quente ali, cama triple king size, poltronas assinadas, tvês estilo cinema que cospe água, sistema de som de última geração. Imóvel no coração da Vila Madalena, vista indescritível e permanente, lazer completo - não, não é o local que vamos morar, mas bem que poderia ser. Qualquer um que já passou por esse momento sabe que as tentações são grandes, mas os custos também. É preciso registrar, pesar os prós e contras e escolher o que melhor se encaixa em seu estilo e orçamento.

Para nós a vontade de possuir está ligada a vontade de crescer. Pode ser que o que almejamos não esteja ainda ao nosso alcance, mas que maravilhas faz esta vontade de evoluir. Estamos economizando, planejando e nos organizando para escolher e poder sustentar o nosso teto pelos próximos poucos anos. A busca pelo ap continua. A cidade é grande e intimidante, as vontades e necessidades diferentes, mas vamos encontrar um cantinho pra viver.